Boneca de trapos, by Pedro Parga

Poem by Pedro Parga in Portuguese, with translation into English by Enzo Martinelli

🇧🇷

Sou feito boneca de trapos!
Sim, boneca.
Nenhum problema em ser de trapos,
tampouco em ser boneca.
Sim, de trapos, restos de panos alheios.
Sim, boneca de saias,
igual aos escoceses mais másculos.
Costuraram em mim uma certa masculinidade,
um trapo, só mais um trapo.
Costurada em mim que ser femininx é errado,
um trapo, só mais um trapo.
"Isso é de menino, aquilo de menina".
"Bonecas é (só) de garotas, carrinhos (só) de garotos".
Trapos, muitos trapos.
Tem, de certo, trapos bem vistos:
Costuraram em mim um sorriso.
Me ensinaram a ser hospitaleirx.
"Agregue, nao exclua!"
Mas tudo um trapo, só trapos.
Alguns amarram, em meu corpo, trapos bem quistos, outros "esquisitos".
Mas quem olha e me diz isso ou aquilo
me vê por olhos costurados,
amarrados por linha assim ou assado,
Portanto, trapos.
Possuem trapos tapando os olhos,
Mas insistem em julgar meus trapinhos,
meu mosaico desengonçado.
Existem, em mim, trapos sobrepostos,
junção de tecidos que não combinam.
Uns dados por elas, outros por eles.
Escolho, entre trapos, o que amarro.
Uns trapos costurados,
outros descartados.
Prefiro os trapinhos que não impedem de costurar mais trapinhos.
Sim, os pequeninos,
formando um mosaico.
Uma boneca de trapos meio mosaico,
um pouco bagunçada,
muito desengonçada,
sem propensão para coerência,
mas que agrega trapos.
Amarro os trapinhos menos vistos e quistos
Sou um mosaico de trapinhos excluídos.
As fábricas disseram:
"Este trapo não serve para nada!"
Os bancos:
"Isto é um trapo, não dá lucro"
Os conservadores:
"Vejam este trapo, tão errado"
Sou um encontro feito de sobras,
de trapinhos pequenos,
todos lá à mostra.
Agrego trapos, mas tambŕm excluo.
Deixo de lado os trapos enormes,
pois tapam os olhos de botões e trapos.
Sou uma boneca de trapinhos.
Todos amarrados de forma única,
mas nem por isso exclusivos.
Recebo trapinhos de uns e de outras,
Pego trapos de todxs
De nada me desfaço.
Uns amarro em mosaico,
outros escondo ou descarto.
Uns nem gosto muito.
As vezes, me julgo um trapo.
O mosaico nunca fica pronto.
Trapos desamarram e caem pelo caminho.
Quanto mais a costura envelhece,
mais trapos perco.
Nem todos trapos escolhi, é verdade.
Uns tento remover, 
outros eu tapo, deixando sobrepostos.
Ficam lá escondidos, onde nem eu mesmo planejo,
de baixo de outros trapos.
Cavando fundo, as vezes encontro.
Retiro trapos que excluem trapos.
Vou assim, sendo uma boneca incompleta, meio mosaico desengonçado, de trapos diversos, nada coerente,
Mas que escolheu agregar trapinhos.
(inspirado trapinhos atribuídos à Cora Coralina”

por Pedro Parga

Pedro Parga é historiador e profesor carioca. Ele escreve poesia e é gay.

Outros poemas de Pedro Parga neste blog:

🇬🇧

Rag Doll

I'm like a rag doll!
Yes, doll.
No problem with being rags,
neither in being a doll.
Yes, of rags, the remains of other people's cloths.
Yes, doll in skirts,
just like the most masculine Scots.
They sewed me a certain masculinity,
a rag, just another rag.
Stitched on me that being feminine is wrong,
a rag, just another rag.
"This is a boy, that is a girl".
"Dolls are (only) girls, carts (only) boys".
Rags, many rags.
There are certainly well seen rags:
A smile was sewn on me.
They taught me to be hospitable.
"Put it together, don't exclude it!"
But everything is rag, just rags.
Some tie well-liked rags to my body, others "weird".
But whoever looks at me and says this or that,
See me through stitched eyes,
tied by thread like roast beef,
So rags.
They have patches covering their eyes,
But they insist on judging my rags,
my ungainly mosaic.
There are overlapping rags in me,
junction of fabrics that do not match.
Some given by them, some others by other.
I choose, among rags, what I bind.
Some rags sewn together,
others discarded.
I prefer rags that do not prevent sewing more rags.
Yes, the little ones,
forming a patchwork.
A ragdoll half patchwork,
a little messy,
very clumsy,
with no propensity for consistency,
but that adds rags.
I bind the least-seen rags and cysts
I am a mosaic of excluded rags.
The factories said:
"This rag is useless!"
The banks:
"This is a rag, it doesn't make a profit"
Conservatives:
"Look at this rag, so wrong"
I'm an ensamble made up of leftovers,
of little rags,
everyone there on display.
I put rags together, but I also exclude them.
I leave aside the huge rags,
because they cover my button eys and rags.
I'm a rag doll.
All tied in a unique way,
but not exclusive.
I get rags from each other,
I take all rags
I do nothing.
Some tie in a patchwork,
others I hide or discard.
Some I dont even like them very much.
Sometimes I think of myself as a rag.
The mosaic is never ready.
Rags untie and fall down the path.
The more the seam gets older,
more rags I lose.
Not all rags I chose, that's true.
Some I try to remove,
some others I cover, leaving them overlapping.
They stay hidden there, where even I don’t plan,
under other rags.
Digging deep, sometimes I find them.
I remove rags that exclude rags.
I am going like this, being an incomplete doll, half disjointed mosaic, with different rags, nothing coherent,
Other that I chose to add rags.
(inspired by rags attributed to Cora Coralina) 

By Pedro Parga

translation by Enzo Martinelli

Pedro Parga is a historian and professor in Rio de Janeiro, Brazil. He writes poetry and is gay.

Other poems by Pedro Parga in this blog:

Photo by David López on Pexels.com

2 thoughts on “Boneca de trapos, by Pedro Parga

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